No Domingo de Páscoa, passei uma boa parte da tarde assistindo ao vídeo de uma reflexão do saudoso papa Bento XVI, proferida por ocasião de um encontro do então sumo pontífice com o clero de Roma, no dia 14 de fevereiro de 2013, — três dias após o comunicado oficial de sua renúncia que, até os dias atuais, é cercada de teorias conspiratórias.
Sob o título de “O Vaticano II, tal como eu o vivi”, ao longo de quase 1 hora, Bento XVI partilhou as lembranças de experiências marcantes, vividas num momento em a Igreja, às vésperas de um dos eventos mais importantes de sua história, se reunia em torno de questões desafiadoras. O então papa se lembra que o Concílio despertou grande expectativa de renovação, de um novo Pentecostes, uma nova era da Igreja que, embora naquele tempo “bastante robusta”, experimentava ao mesmo tempo uma clara sensação de estagnação, diminuição. “Parecia mais uma realidade do passado que a portadora do futuro. E naquele momento, esperávamos que esta situação se alterasse, mudasse; que a Igreja fosse de novo força do futuro e força do presente”, declarou Bento XVI.
O então pontífice também lembrou que “E sabíamos que a relação entre a Igreja e o período moderno tinha sido, desde o princípio, um pouco contrastante, a começar do erro da Igreja no caso de Galileu Galilei; pensava-se em corrigir este início errado e encontrar de novo a união entre a Igreja e as forças melhores do mundo, para abrir o futuro da humanidade, para abrir o verdadeiro progresso.”
Concluído o Concílio, em 08 de dezembro de 1965, as mesmas questões propostas e discutidas continuam a desafiar a Igreja ao longo de seis décadas. Um dos grandes desafios está justamente em “afirmar e dar a entender que a Igreja não é tanto uma organização, algo de estrutural, jurídico, institucional — embora também o seja — como sobretudo é um organismo, uma realidade vital, que entra na minha alma, de tal modo que eu próprio, precisamente com a minha alma crente, sou elemento constitutivo da Igreja como tal”, ressalta Bento XVI. O então papa lembrou a Encíclica Mystici Corporis Christi, de Pio XII, que em seu contexto expressa que “nós somos a Igreja, a igreja não é uma estrutura; nós, os próprios cristãos juntos, todos nós somos o Corpo vivo da Igreja. Naturalmente isto é válido no sentido que o nós, o verdadeiro ‘nós’ dos crentes, juntamente com o ‘Eu’ de Cristo é a Igreja; cada um de nós, não ‘um nós’, um grupo que se declara Igreja. Isso não! Este ‘nós somos Igreja’ exige precisamente a minha inserção no grande ‘nós’ dos crentes de todos os tempos e lugares”.
Após 60 anos de início da caminhada pós-Concílio, as palavras de Bento XVI em sua palestra parecem nos inquirir. Afinal, avançamos? Se ocorreram transformações significativas, é possível celebra-las sob os parâmetros de fidelidade ao magistério, à tradição e à verdadeira evangelização herdada dos apóstolos? Neste contexto, cabe uma reflexão. Infelizmente existem correntes infiltradas na Igreja que claramente torcem a real proposta do Vaticano II, sob ideologias totalmente antagônicas ao Evangelho, ao magistério da Igreja e à tradição. Consequentemente, essa realidade traz muito mais prejuízos do que supostos avanços em consonância com a real proposta do Concílio.
Neste aspecto surge uma palavra-chave que expõe uma realidade perigosa, enganadora e tão profundamente sutil e astuta como a própria serpente mencionada em Gênesis…: mundanismo.
Será que a real proposta do Concílio Vaticano II aponta para uma Igreja que deve se (i)mundanizar para “acompanhar” os avanços do presente século? Será que a real proposta do Concílio Vaticano II aponta para uma Igreja que retira Jesus Cristo de seu centro e o substitui por uma catequese marxista, socialista e comunista? Será que a real proposta do Vaticano II aponta para uma Igreja que estupra o Presbitério, transformando o local sagrado em palanque de doutrinação político-ideológica?