No dia 06 de agosto a Igreja celebra a festa da Transfiguração de Jesus, uma festa que começou a ser celebrada no Oriente no século V, como uma espécie de Páscoa de verão. A palavra grega, de onde se origina transfiguração, é metamorphosis, que indica a mudança de forma e de aspecto, de que se julgava capazes os deuses. Naturalmente o uso do termo para designar o episódio relatado em Mt 17, 1-8; Mc 9,2-8; Lc 9,28-36 não tem conexão com o uso mitológico que se fazia.
A revelação feita a Pedro, Tiago e João nestas passagens não tem paralelo no Antigo ou no Novo Testamento e é impossível reconstruí-la inteiramente. Mas os temas e os simbolismos usados para comunicar tal experiência são claros e derivados de outras passagens bíblicas, e o significado teológico da revelação não é obscuro. A colocação do episódio nos três evangelhos é depois do primeiro anúncio da paixão, e isto é significativo: a transfiguração dá aos anúncios da paixão a explicação necessária. Deve-se notar que é um tema constante nos evangelhos sinóticos que esta explicação não foi compreendida pelos discípulos antes da ressurreição. A transformação do aspecto de Jesus que é descrita, faz pensar na transformação da qual se fala nas narrativas da ressurreição e que torna difícil aos apóstolos o reconhecimento do mestre.
Luz e Glória são, no Antigo Testamento, elementos da teofania: revelam a presença sensível de Deus. A brancura da qual se fala nas três passagens é a luminosidade da glória; essa pertence ao Cristo Ressuscitado. A nuvem é também um elemento da teofania do Antigo Testamento: a nuvem e as palavras pronunciadas pelo Pai derivam do batismo de Jesus. O monte do qual não se menciona o nome, mas é identificado como o Tabor, no qual o episódio se passou, faz pensar na montanha da revelação de Moisés, Sinai-Horeb. Também Moisés e Elias representam a lei e os profetas, os escritos e a tradição sagrada de Israel que preanunciam a paixão e a glorificação do Messias. As tendas que Pedro quer, evocam a Tenda do Antigo Testamento como o lugar em que Iahweh habita no meio de seu povo. A ordem de Jesus de não falarem da visão, senão após a ressurreição, sugere que os discípulos não compreenderam a relação entre a paixão e a glorificação de Jesus senão depois da sua ressurreição.
A transfiguração é muito mais do que uma repetição do batismo de Jesus ou uma aparição da ressurreição deslocada: é a afirmação de que o Filho do Homem, também na sua existência terrena, é o Filho do Homem glorioso, reconhecido na sua glória após a sua paixão e ressurreição. Segundo o anuncio da paixão, a transfiguração é uma revelação da verdade que a paixão é seguida pela glória. A plenitude do significado da atestação que Jesus é o Filho de Deus enviado do Pai, se percebe nos episódios progressivos de sua vida terrena. O conteúdo tremendo e misterioso desta revelação é tão maravilhoso que pode ser descrito com termos do êxtase e das visões.