No último artigo desta coluna, refletimos sobre a importância da nossa identidade como indivíduos e como nação. Lembro que minha inspiração veio da canonização de São Carlo Acutis, no dia 7 de setembro que já se aproximava, e da sua célebre frase: “Todos nascemos originais, mas muitos de nós morremos como fotocópias”. Enquanto escrevia, percebia cada vez mais que todo pecado nasce, em última instância, do distanciamento daquilo que realmente somos: filhos de Deus, membros vivos do Corpo de Cristo.
É por isso que a revelação de Deus a Moisés ressoa tão profundamente: “Eu sou Aquele que Sou” (Ex 3,6). E também as palavras de Jesus: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8,32). A verdade que nos liberta é justamente a nossa identidade em Cristo.
Após escrever e publicar, me surgiu uma questão: como recuperar essa identidade quando já nos perdemos em tantas distrações, ilusões e máscaras?
Rezei pedindo a intercessão do então beato Carlo Acutis, buscando essa resposta. E, de maneira providencial, ela veio através do Evangelho proclamado na Missa de domingo (Lc 14,25-33): o chamado de Jesus ao desapego. Naquele momento, olhando as imagens de Carlo expostas junto ao altar, em ocasião da canonização, tive a certeza de que Deus respondia à minha oração.
O apego é, de fato, o grande ladrão da nossa verdadeira identidade. Apego aos bens materiais, às opiniões dos outros, à necessidade de aprovação, ao medo, ao orgulho… Tudo isso nos prende a uma identidade falsa, construída sobre o que possuímos ou aparentamos, e não sobre o que realmente somos.
É aqui que a vida de São Francisco de Assis ilumina de modo especial o tema deste mês. Francisco nos recorda que a pobreza evangélica não se resume à falta de bens, mas ao coração livre. Não é uma questão de “ter” ou “não ter”, mas de não deixar-se possuir. Alguém pode viver na simplicidade material e, mesmo assim, estar preso pela inveja, pelo ressentimento ou pelo desejo de poder. Do mesmo modo, outro pode possuir bens e responsabilidades, mas com o coração totalmente desapegado, pronto para servir.
É nesse sentido que Jesus nos chama a ser “pobres em espírito” (Mt 5,3): desapegados de tudo aquilo que rouba nossa liberdade de sermos quem realmente somos. Isso inclui abrir mão do orgulho e do egoísmo, lembrando a belíssima oração atribuída a São Francisco: “É compreendendo que se é compreendido, é amando que se é amado”.
Viver o desapego, portanto, não é negar a vida, mas vivê-la em sua verdade mais profunda: reconhecer que nada nos pertence, a não ser o amor de Deus, que é eterno. Todo o resto é transitório. Ao morrer para o mundo, para as vaidades, para o orgulho, para a ilusão de controle, abrimos espaço para viver já aqui a vida eterna, que começa na entrega confiante ao Senhor.
Ser livre é ser desapegado. E ser desapegado é viver como quem realmente somos: filhos amados do Pai.