Concluindo o ciclo pascal e abrindo-nos novamente à caminhada que a Igreja chama de “Tempo Comum”, somos convidados a celebrar solenemente a festa da Santíssima Trindade. A Trindade não é para a fé cristã algo supérfluo, mas é o mistério fonte de todos os outros mistérios, é o que dá luz e profundidade a toda afirmação cristã sobre Deus: ninguém entende o que significa dizer “Deus é amor” se não tem presente a Trindade. E é justamente por esta comunhão de amor que adentramos no mistério trinitário.
É sempre bom recordar que a Trindade de Deus não nos foi revelada como “doutrina”, ou seja, em forma de enunciados sobre Deus, e sim mais como realidade experimental de fé no Filho de Deus encarnado entre nós e na ação do Espírito Santo que nos santifica. A doutrina trinitária decorre das tentativas de expressar, de maneira significativa e coerente, a realidade dessa experiência. A fé cristã é fé em uma peculiar presença do próprio Deus no mundo mediante Jesus de Nazaré e da ação do seu espírito entre os homens: nela se nos dá uma forma particular de acesso a Deus, ou melhor, de auto-abertura de Deus, que nos permite dizer sobre Ele mais do que nos atreveríamos dizer a partir da mera realidade natural.
Assim, a doutrina sobre a Trindade não é o fruto de uma especulação sobre Deus como Absoluto ou Causa Primeira, mas o de uma reflexão sobre a história da auto-revelação de Deus na História da Salvação segundo a tradição judaico-cristã. Nela Deus aparece se abrindo ao homem como uma comunicação que culmina na autocomunicação do próprio Deus em Jesus – Deus encarnado – e no Espírito – Deus agindo entre os homens –. Os cristãos acolhem esta ação trinitária de Deus, e reconhecem que ela transforma a sua existência. Poderíamos dizer que creem na Trindade de Deus e no caráter trinitário de sua ação salvífica antes de terem os instrumentos conceituais para expressar como a Trindade pode se configurar com o monoteísmo ao qual, evidentemente, não se pretende renunciar. A Trindade é experimentada, crida e vivida antes de ser propriamente “pensada” e conceituada. A fé trinitária precede, como deve ser, à teologia e ao dogma.
As primeiras comunidades vivem da fé na salvação outorgada por Deus-Pai, mediante seu Filho Jesus Cristo e mediante a força do Espírito. Em suas fórmulas de oração (invocações, doxologias) se dirigem a Deus como Pai, Filho e Espírito Santo. A mesma tríplice denominação aparece imediatamente nas confissões de fé. É evidente que ninguém pensa em renunciar ao monoteísmo, mas Pai, Filho e Espírito Santo parecem ser, igualmente, objeto de adoração. Santo Agostinho dedicará a sua obra “A Trindade” para mostrar precisamente que estes três de que fala a Escritura não são mais que o único Deus. À luz da fé, Santo Agostinho reconhecerá que o Deus cristão é essencial e eternamente movimento de autocomunicação em relação tríplice que não rompe a unidade, mas realiza-se como unidade vivente e fecunda.
A vivencia trinitária é sobretudo uma escola de santificação, como nos atesta Santa Elisabeth da Trindade, canonizada pelo Papa Francisco em 2016, que foi cada vez mais, em sua vida mística, se abrindo à Santíssima Trindade. Em 1904, Elisabeth compõem a oração Ó meu Deus, Trindade que adoro, em que nos ensina a rezar: “Ó meu Três, meu Tudo, minha Beatitude, Solidão Infinita, Imensidade em que me perco, entrego-me a Vós como uma presa. Supultai-Vos em mim, para que eu me sepulte em Vós, esperando ir contemplar na Vossa luz o abismo das Vossas grandezas.”