Quantas vezes, diante de nossos erros, mergulhamos em uma justificativa aparentemente irrefutável: “foi o diabo”. Como se, em um passe de mágica espiritual, todo deslize nosso pudesse ser terceirizado a uma força invisível, poderosa e maligna. É claro que a Bíblia e a Igreja nos alertam sobre a realidade do Maligno e suas tentações. Mas será que é certo colocarmos toda a culpa nele?
Essa postura, tão comum, nos leva a um perigo espiritual silencioso: o da autoindulgência. Ao transferirmos nossa culpa para o diabo, acabamos nos colocando numa posição de vítimas inocentes, sem responsabilidade ou poder de decisão. Mas isso, com toda certeza, não é o que a Palavra de Deus nos ensina.
Em Tiago 1,14, está escrito: “Cada um é tentado pela sua própria cobiça, que o arrasta e seduz.” Ou seja, o problema nem sempre está fora de nós, na maioria das vezes, está dentro. A tentação pode vir do diabo, sim, mas ceder a ela é escolha 100% nossa. Temos liberdade, temos consciência, temos a graça de Deus, e temos, portanto, total responsabilidade.
Claro, que também existem as ações extraordinárias do demônio, como a possessão, obsessão, vexação e infestação. Nestes casos, você realmente não tem responsabilidade, pois o mal causado não passa pelo filtro da sua vontade. Porém, são casos excepcionais e raríssimos.
Na Santa Missa, proclamamos: “Por minha culpa, minha tão grande culpa…” Esse trecho do Ato Penitencial é um convite profundo à maturidade espiritual. Ele nos ensina que o primeiro passo para a reconciliação com Deus não é apontar o dedo para fora, mas reconhecer, com humildade, o que vem de dentro. Só quem reconhece sua culpa pode experimentar o perdão verdadeiro.
Admitir a própria culpa não é cair no desespero, ou temer e ‘‘atrair’’ o próprio castigo. Ao contrário, é o início da transformação. A fé cristã não nos convida ao vitimismo, mas à conversão. Deus não nos quer paralisados na culpa, mas libertos pela verdade. E essa verdade começa pelo reconhecimento: “fui eu que pequei”.Esse reconhecimento, longe de nos afastar de Deus, é justamente o que nos aproxima d’Ele. Porque, ao assumirmos nossos pecados, abrimos o coração para que a graça aja. E é aí que entra o grande chamado da vida cristã: “Sede santos, como vosso Pai celeste é santo” (Mt 5,48). A santidade não é uma meta para pessoas perfeitas, mas para pecadores que não têm medo de reconhecer suas quedas e se levantar com a ajuda de Deus e humildade.
Portanto, da próxima vez que errarmos (e isso vai acontecer), antes de dizer “a culpa é do diabo”, que possamos olhar para dentro, com coragem, e dizer: “Senhor, fui eu. Tende piedade de mim e dai-me a força para mudar.” É assim que se começa o caminho da santidade.